|
Não nos é fácil
entender a realeza de Cristo com os
olhos deste mundo. Estamos, como Pilatos,
diante de um homem que é trazido a
julgamento porque se fez Rei. “Então es
tu rei?” Sequer entendemos o que pode
significar ser rei, senão como o senhor
absoluto, o dominador e não um julgado à
morte.
E, no entanto, a resposta de Jesus é
afirmativa. E conclusiva:”para isso
nasci e para isto vim ao mundo, para dar
testemunho da verdade. E quem é da
verdade escuta minha voz.” (Cf. Jo.18,
33-37).
Em outra passagem do Evangelho, diz que
os poderosos deste mundo querem mandar e
serem servidos.”Mas entre vós não deverá
ser assim. Ao contrário aquele que
quiser tornar-se grande entre vós, seja
aquele que serve…Deste modo o Filho do
Homem não veio para ser servido, mas
para servir e dar a sua vida em resgate
por muitos “(Cf. Mt.20, 25-28)
Como, então entender esta realeza que se
marca pelo serviço e que tem na fronte
uma coroa de espinhos e, por trono, o
patíbulo da cruz?
Marcada pelo pecado do orgulho, a
humanidade quis prescindir da verdade e
dominar pela soberba. Rejeitou a Deus e
tenta sujeitar a si todas as coisas,
escravizando-as. Transtornou a ordem do
universo que, contra ela se revoltou –“A
terra produzirá para tí espinhos e
cardos e comerás a erva dos campos. Com
o suor do teu rosto comerás o pão”(Cf.
Gen 3, 18)
Só a Verdade nos libertará (Cf. Jo.8,
32), quando reconhecendo a majestade
divina, voltarmos à ordem da
criação.Para restaurar a beleza deste
universo, Cristo, ao entrar no mundo,
como nos ensina a Carta aos Hebreus,
disse:”Eis-me aqui, eu vim, ó Deus, para
fazer a tua vontade”(Cf. Heb.10, 7).
Reconhecendo a soberania de Deus, as
criaturas se abrem entre si no amor e no
serviço de reconstrução da dignidade
perdida
Por isso Cristo se ofereceu na ara, no
altar da Cruz, no vértice da História,
ungido com o óleo da alegria e da
exaltação, apagando com seu sangue o
pecado e estabelecendo um novo reino,
uma nova terra, um reino de santidade e
de vida, de justiça, de amor e de paz,
para o qual nós caminhamos cada dia, com
o auxílo da graça, no esforço de
cumprimirmos a vontade de Deus no
serviço e amor aos irmãos.
Todo este trabalho, unido ao sacrifício
de Cristo, não tem comparação, como nos
ensina S. Paulo, com a glória que vai se
revelar em nós, pela qual anseia toda a
natureza na esperança de também ela ser
libertada da escravidão da corrupção
para entrar na liberdade da glória dos
filhos de Deus (Cf. Rom. 8,18).
O patíbulo dos condenados se tansformou
no trono de glória. Santo Agostinho, no
seu ardor de convertido, exclama que
hoje a cruz encima os mais altos
edifícios e se sobrepõe na coroa dos
reis que a ela se submetem.E a Igreja
num dos mais belos hinos sobre a
bandeira da Cruz, canta, solene e
vitoriosa, que o Senhor reinou pela
cruz.
“Este sinal da cruz”, reza o capítulo
12, do Segundo Livro da Imitação de
Cristo, “estará no céu, quando o Senhor
vier julgar. Então todos os servos da
cruz, que conformaram sua vida com o
Crucificado, acorrerão ao encontro de
Cristo, com grande confiança”.
Neste dia, quando Cristo se assentar
para o julgamento final, Ele entregará
ao Pai o Universo restaurado na graça e
os redimidos irão com Ele para a glória:
“A realeza do mundo passou agora para
Nosso Senhor e seu Cristo e ele reinará
pelos séculos dos séculos” (Cf. Apoc.
11, 15.)
O Reino de Cristo, não é um Reino
passageiro e temporal. É um Reino eterno
e universal que faz a humanidade
caminhar ao encontro da sua perfeição e
dignidade e com ela toda a criação. Vi,
então um novo céu e uma nova terra,
porque “Agora realizou-se a salvação e a
realeza de nosso Deus e a autoridade de
seu Cristo.(Cf. Apoc.12,10).
DOM EURICO DOS SANTOS VELOSO
ARCEBISPO METROPOLITANO DE JUIZ DE FORA,
|